Laranja Mecânica: Em um futuro tão indeterminado?

Uma sociedade marcada por contradições, em que se vale pelo que possui, o protagonista é um produto desse sistema de valor.  A delinqüência é um pedido de ajuda, que busca controle, proteção e acolhimento. 

  

Laranja Mecânica é um longa-metragem dirigido por Stanley Kubrick que se tornou um clássico no cinema mundial. Kubrick situa sua história, no que identifica como um futuro indeterminado.  Porém, hoje, não nos parece um futuro tão indeterminado assim.

Em tempos de barbárie social, não nós vemos muito longe, do tenebroso futuro descrito por Kubrick.  O que retoma a uma questão: o que levaria a juventude a atos tão extremos? E em nome de quê ou quem, esses atos? Para essa análise contextualizo um período fundamental no desenvolvimento humano: a adolescência. O filme aborda a violência, sexo, a geração sem limites e o culto a imagem, em seus extremos, tão característico em alguns momentos dessa fase.

A adolescência é um período marcado por descobertas e avanço dos limites dados, em primeiro pelos pais, depois pela sociedade e por fim pela justiça. O jovem testa as leis que marcam as relações, no percurso de expansão de sua personalidade. Ele avança na espera que algo o pare, que traga uma moldura a sua expansão psíquica. Em Laranja Mecânica, Alex o protagonista, ilustra bem a fragilidade dos limites dado pelos seus pais ou não dados. E quando esses limites falseiam é na sociedade que ele avança para a transposição de novos limites. O jovem que não encontra limite devidamente estabelecido pela família busca em última instãncia a sociedade, para que demarque limites tão necessários ao seu crescimento emocional. A delinqüência é um pedido de ajuda, que busca controle, proteção e acolhimento.  Qual o papel da família no desenvolvimento humano? A família nuclear é importante na constituição da personalidade (de seus entes), por si só, é um fato que determina, mas não sentencia. Sua privação marca o inicio de uma reação em cadeia, que pode levar ou não a um comportamento anti-social.


Outro fato curioso, a luz da adolescência, é o fenômeno de identificação grupal. Ilustrado por Kubrick, seu personagem Alex é líder de uma gangue de delinqüentes, conhecidos como Droogs, que matam, roubam e estupram. A gangue se utiliza de um dialeto chamado “Nadsat”, onde há uma certa mistura de línguas. Os Droogs são capazes dos atos mais perversos e aviltantes ao ser humano. Isso demonstra uma realidade psíquica grupal, onde o individuo é tomado pelos impulsos mais primitivos (agressividade, violência, medo e etc.) quandoem grupo. O individuo no coletivo tem mais facilmente seus valores morais e éticos diluídos, pela vontade grupal, do que quando está sozinho. A identificação grupal fornece subsídios psíquicos para que o individuo nivele seus valores por aquilo que é mais instintual, ou melhor descrito como sendo primitivo. A necessidade de auto-afirmação da personalidade, em meio ao grupo, leva o individuo ao anulamento de sua vontade e a participação de atos, que normalmente não faria.

Enfim, a narrativa apresentada por Kubrick nos fornece elementos interessantes ao estudo da personalidade e comportamento grupal. Ela pinta de cores fortes, uma história fictícia que não está fora de questão, na realidade que se delineia-se nos dias atuais. O que não pode-se dizer desse filme, é que: essa laranja esteja passada.

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Uma resposta para Laranja Mecânica: Em um futuro tão indeterminado?

  1. penelope confrio disse:

    Esse é um dos meus filmes preferidos e apesar de ter mais de 40 anos continua mais atual do que nunca,mais que na época em que foi lançado,em que seu propósito era criticar a terapia comportamental e o behaviorismo em si,mas hoje ele se encaixa no que vivemos,na bestialidade do cotidiano,em que por nada está se brigando ou matando,é só abrir os jornais ou ligar a TV para ver a” Laranja Mecânica” diriamente:mendigos são queimados,prostitutas são chutadas,homossexuais xingados,inclusive c/ as bençãos de alguns deputados boçais que se elegem c/ votos de outros 300.000 boçais…Enfim,penso que a Idade Média nunca acabou, e é isso mais ou menos que aparece no filme,travestido por uma juventude sem propósito,para nós,mas para eles o propósito talvez seja se vingar de nunca terem lhes dado o mínimo de estrutura,de limites,de afeto,tal como vemos hoje c/ essa juventude que reproduz seu modelo.

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