Reforma Psiquiátrica: uma solução paradigmática.

A forma de lidar com a loucura não está restrita aos muros psiquiátricos, sendo antes um modo de relacionar-se e cuidar da loucura.

De acordo com Paulo Amarante (2003, p, 53.) : “… a doença não é um objeto, mas uma experiência na vida de sujeitos distintos”. Então a implementação de políticas publicas especificas, que contemplem diversidades de vida faz-se fundamental para a consolidação da Reforma psiquiátrica. Conhecer os caminhos distintos desses sujeitos. Seu caminhar fora dos muros. Ampliar a clinica para além dos limites geográficos das instituições e construir novos aparatos sociais. Assim, possibilitar a existência global de um sujeito, num corpo social que ainda se vê referenciado ao modelo ultrapassado “doença” separada da existência global. A forma de lidar com a loucura não está restrita aos muros psiquiátricos, sendo antes um modo de relacionar-se e cuidar da loucura.

Amarante, (2001) refere-se como um equivoco entender a Reforma Psiquiátrica como uma simples reestruturação do modelo hospitalocêntrico. O cuidado não deve ser visto apenas como um local ou uma nova forma de geografia da assistência, mas deve se traduzir em algo que vá até o usuário que respeite suas particularidades e necessidades. Ser uma ponte entre o sofrimento e à sociedade.

A epistemologia de Gaston Bachelard e o pensamento kuhniano., considera que o processo de elaboração de conceitos e mudanças pode emperrar devido à existência de obstáculos epistemológicos. “Estes obstáculos são vencidos por atos epistemológicos que retomam a fluência do processo de produção de conceitos” (Camargo Jr, 1992). A discussão ampla desses conceitos pode trazer a luz os entraves que ainda não demonstram soluções, definitivas, ao Paradigma Asilar. Iniciativas técnicas e estruturais concretas são importantes, mas não se sustentariam sem um bojo conceitual também reformador.

A não superação conceitual asilar, ainda se encontra presente, já que contempla separadamente a idéia de reformar ao ato de se reformar. O ato terapêutico reformador dissociado da idéia é mantenedor do isolamento social.

Embora o Paradigma Asilar não abrangesse condições dignas de tratamento (técnicas disciplinares, contenção química e outras.), ele possui um poder de convencimento social, que respondeu bem a demanda de seu tempo: ele exclui os “loucos” da sociedade. O Epistemologo Kuhn explica que um paradigma é hegemônico não porque é verdadeiro, mas sim por ter a capacidade de convencimento em resolver a maioria dos problemas (Camargo. Jr. 1992). Reformar a questão da loucura não se trata somente de criar novas instituições ou espaços de tratamento diferente do modelo asilar. Trata-se de questionar se de fato houve uma mudança de paradigma. Já que o Paradigma da Reforma continua a perpetuar o mesmo modelo de resolução de problemas para o “louco” de o Paradigma asilar: criar instituições que mantenham o “louco” fora do corpo social. E por que não integrá-lo com sua diferença em sociedade?

Trata-se de renovar então o paradigma para que se encontre modelos convincentes de resolução de problemas que inclua o usuário da saúde mental, como sujeito do social. Quando o ‘louco’ sai da situação de internação, hoje, o que encontra de acolhimento e aceitação social para além muros? Outros muros?

Não se faz eficaz só mudar a cena, mas também mudar as regras do jogo social para que essa clientela se veja incluída e fazendo parte de uma mesma sociedade.

AMARANTE, P (2003). “A (clínica) e a Reforma Psiquiátrica.” Em: Amarante, Paulo (coordenação). Archivos de Saúde Mental e atenção psicossocial/ Moacyr Scliar… (et al.). Paulo de Frontin, RJ: NAU Editora, p, 45 – 63.

CAMARGO JR.K.R. (1992) “Paradigmas, ciência e saber médico.” Série Estudos em Saúde Coletiva, n 6. Rio de Janeiro: UERJ/ IMS, p, 1 – 20.

CAMARGO JR. K.R & NOGUEIRA. M. I (1998) “ Dois tópicos para uma discussão sobre medicina e ciência.” Série Estudos em Saúde Coletiva, n 172. Rio de Janeiro: UERJ/ IMS, p, 3 – 18.

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4 respostas para Reforma Psiquiátrica: uma solução paradigmática.

  1. Penelope disse:

    Pois é querida Paula,pena que várias de suas colegas de profissão sejam as 1ªs a ir a favor do modelo hospitalocêntrico,mesmo se dizendo a favor da dita Reforma Psiquiátrica;basta surgir um problema num CAPS(Centro de Atenção Psicossocial),que deveria ser um substito às internações,deixando as mesmas p/ último caso,mas não,como dizia,basta o paciente dar uma “surtada” e pronto!!! leva para a emergência e interna…E ai do profissional,geralmente o MÉDICO,que se interponha;vc sabe do que falo,vc vivenciou isso.De tanto internar, essas pessoas acabam perdendo suas referências aqui fora e muitas que nem tão loucas assim são,acabam “aprendendo” a ser ,dentro dos hospitais c/ pacientes mais graves a sê-los,tal como o personagem do Jack Nicholson em “Um Estranho no Ninho”.Parece que não,mas loucura pode ser de uma certa maneira ‘contagiosa”,principalmente para nossos profissionais de saúde, se não forem bem preparados para saber lidar c/ as situações mais difíceis,ao invés de sair logo indicando internação para qualquer “piti” que um paciente dê,até porque os ditos loucos tb têm seus dias de chatice e de piti,como todos nós!!!!E é assim que tem de ser, já que como dizia Caetano Veloso:”de perto ninguém é normal”.Bjs e sucesso Paula!!!!!!!!

    • Paula Muniz disse:

      Pois é Valéria… Vc é uma psiquiatra, que só tenho a tirar o chapéu!! Aprendi muito contigo e sou prova viva de sua sensibilidade com os pacientes. Vivemos experiências marcântes, em plantão, que de fato, retratam o que disse.
      Sempre repito que “maluquice” é diferente de indôle, e que louco tb chora, ri, sente-se triste e tem seus dias de chatice, tal qual qualquer um. São tb sujeitos, exatamente expostos as intempéries do cotidiano. É como vc disse nas palavras de Caetano, pena que muitos ainda se agarram aos seus paradigmas obsoletos, mas tão queridos!
      Obrigada por ser essa pessoa e profissional tão generosa. Sempre disposta a doar. Uma professora da vida!!!!

  2. Este assunto me fez lembrar do “O Alienista” de Machado de Assis, para ilustrar o post e o que foi comentado, coloco aqui a sinopse do livro…
    “Simão Bacamarte é o protagonista, médico conceituado em Portugal e na Espanha, decide enveredar-se pelo campo da psiquiatria e inicia um estudo sobre a loucura e seus graus, classificando-os. Funda a Casa Verde, um hospício na vila de Itaguaí e abastece-o de cobaias humanas. Passa a internar todas as pessoas da cidade que ele julgue loucas; o vaidoso, o bajulador, a supersticiosa, a indecisa etc. Costa, rapaz pródigo que dissipou seus bens em empréstimos infelizes, foi preso por mentecapto. A tia de Costa que intercedeu pelo sobrinho também foi trancafiada. O mesmo acontece com o poeta Martim Brito, amante das metáforas, internado por que se referiu ao Marquês de Pombal como o dragão aspérrimo do Nada. Nem D. Evarista, esposa do Alienista escapou: indecisa entre ir a uma festa com o colar de granada ou o de safira. O boticário,os inocentes aficcionados em enigmas e charadas, todos eram loucos. No começo a vila de Itaguaí aplaudiu a atuação do Alienista, mas os exageros de Simão Bacamarte ocasionaram um motim popular, a rebelião das canjicas, liderados pelo ambicioso barbeiro Porfírio. Porfírio acaba vitorioso, mas em seguida compreende a necessidade da Casa Verde e alia-se a Simão Bacamarte. Há uma intervenção militar e os revoltosos são trancafiados no hospício e o alienista recupera seu prestígio. Entretanto Simão Bacamarte chega á conclusão de que quatro quintos da população internada eram casos a repensar. Inverte o critério de reclusão psiquiátrico e recolhe a minoria: os simples, os leais, os desprendidos e os sinceros. O alienista contudo, imbuído de seu rigor científico percebe que os germes do desequilíbrio prosperam porque já estavam latentes em todos. Analisando bem, Bacamarte verifica que ele próprio é o único sadio e reto. Por isso o sábio internou-se no casarão da Casa Verde, onde morreu dezessete meses depois. Apesar do boato de que ele seria o único louco de Itaguaí, recebeu honras póstumas.”
    Paz, Arte e Loucura!

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