Ouvir é diferente de escutar?

Começo a abrir esse espaço de reflexão e informação com uma questão que para mim é fundamental e vez por outra aparece como uma pergunta que me endereçam.

“– O escutar da análise é diferente de ouvir?”

De fato, é!

Para começar a estabelecer essa diferença vamos ao significado do dicionário de cada uma. Auxiliada pelo Moderno Dicionário de Língua Portuguesa – Michaelis, o significado de ouvir relaciona-se mais com os sentidos da audição e ao próprio ouvido. Demonstra uma idéia mais mecanicista e funcional do processo. “Entender, perceber pelo sentido do ouvido.”.Escutar seria um aprofundamento dessa experiência, significa: “… prestar atenção para ouvir; dar atenção a; ouvir; sentir; perceber…” Ou seja: o ato deescutar requer uma dimensão mais ampla e envolve mais sentidos do que tão somente o da audição. Requer estar atento ao interlocutor e dar um lugar ao que se ouve. Seria uma aplicabilidade mais especifica, portanto menos superficial que o ato de ouvir. Uma expressão interessante do senso comum é: “– Vou dar ouvidos ao que diz!”. Refere-se a uma tomada de posição frente a um discurso escutado. Isso aproxima-se mais da idéia de escutar.

Em se tratando de uma escuta analítica Freud em seu artigo dedicado aos médicos que exercem a psicanálise (1912) fez uma interessante analogia da comunicação inconsciente com o ajuste de um receptor telefônico.  O analista oferta uma escuta ao seu analisando tal qual um receptor se ajusta ao microfone transmissor em que irá capacitar uma escuta mais particular e especifica de modo a poder pinçar o que escapa do inconsciente comunicado no discurso do analisando. Escutar analiticamente requer uma disponibilidade em dar igual relevância a tudo que é escutado, para então revelar um sentido próprio, até então velado, ao analisando.

Assim, dependendo do que cada um espera em termos de atenção de seu interlocutor. Tanto ouvir como escutar terá sua aplicabilidade especifica. No cotidiano, trabalho. Lazer e entre amigos ou familiares mais comumente exercitamos o ouvir. Agora se desejamos uma auto-reflexão, progresso subjetivo, um melhor manejo do viver e mudança, isso sim, só envolve acapacitação profissional em escutar. Não é a toa que o senso comum manifesta-se assim: “– Quem escuta ouve, porém quem ouve não escuta.”

Esse post foi publicado em Análise e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s